terça-feira, 17 de maio de 2016

Presidência: cuidado com o que desejas


Com o afastamento de Dilma, Michel Temer realiza o sonho da maioria dos políticos, ser Presidente da República. Certamente, um homem como ele, aos 75 anos, advogado, professor universitário e com longa carreira na vida pública, sabe que não seria fácil tirar o país desse buraco. Ademais, assumir a presidência significaria ter a obrigação de reverter este quadro, sob pena de ter sua carreira manchada eternamente como o presidente que teve sua chance, e não deu certo. Como diz o provérbio Judaico: "Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido". 

A julgar pelos seus movimentos iniciais, de preparar a transição para um possível governo interino durante o processo do impeachment, pareceu adequado. Foi discreto e tentou, nos bastidores montar seu ministério, enxuto e norteado pelo mérito técnico. Começaram justo ai as limitações. A imprensa divulgou nomes indicados pelos partidos “aliados”, para que o possível governo tivesse maioria na câmara e pudesse aprovar as medidas de ajuste. O embrolho é tão grande que até nomes citados na “Lava-jato” agora são Ministros. Entre a cruz e a espada, mais uma vez, governar não parece tarefa de fazer o que é necessário, mas de fazer o que é possível. 

Acredito que o presidente tem plena ciência de tudo, e até boa fé, mas assumiu o risco de administrar o caos. Mal comparando, é como se um time com uma grande torcida, que tivesse atravessando um péssimo momento, trocasse de técnico e dissesse a ele: “Olha, você tem obrigação de montar um time pra ganhar o campeonato, mas só vai poder escalar metade do time, a outra metade tem que deixar quem já estava jogando”. Temer presidiu a Câmara dos Deputados em três oportunidades, e é considerado profundo conhecedor das engrenagens do congresso. O problema é não ter “carta branca” para escolher os “jogadores” e ter como adversário uma esquerda que não desiste até que o juiz apite o fim da partida. 

Temer tem 6 meses de governo para mostrar para que veio. Em poucos dias a população emitirá as suas primeiras impressões sobre seu governo. Se continua ou não no cargo, vai depender do resultado do julgamento da Presidenta. E que ele abra o olho, pois diferentemente do que se anunciou na imprensa, 55 votos pelo impeachment não é larga vantagem quando se precisa de 53 para Dilma voltar ao poder. Num Brasil de “dossiês”, dois Senadores podem mudar rapidamente seus votos, dependendo dos “agrados”. Para o bem da nação, espero e rezo para que tudo seja como parece não ser. 

Dimas de Castro e Silva Neto

Professor Ajunto da Universidade Federal do Cariri
Doutorando em Eng. Civil na Universidade de Aveiro

Artigo publicado no Jornal do Cariri de 17/05/2016

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