A
“Lava-jato” criou uma nova categoria de criminosos no Brasil: “o arrependido”. O
delator compromete-se a confessar seus crimes, “entregar” seus pares e devolver
parte dos recursos que foram desviados. Em troca, é lhe oferecido o privilégio
da redução de sua pena, a prisão domiciliar ou uso de tornozeleira eletrônica. O
rigor e eficiência do judiciário e da polícia nestas investigações, fez com que
os denunciados não vissem outra opção, senão começar a “entregar o ouro”.
A
delação tornou-se então a ferramenta mais importante nos processos de
investigação destes crimes de corrupção. Não fosse isso, nunca veríamos tantos
mandatos de prisão a serem cumpridos, em tão pouco tempo. Quem imaginaria um
dia ver os controladores de Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Cia,
presos e “entregando” seus comparsas? Quem imaginaria políticos como os ex-Senadores
Delcídio do Amaral e Sérgio Machado, falando tudo (ou quase tudo) sobre seus
colegas de partido, para “livrarem a pele”?
Delatar,
no caso dos empresários, significa mais do que a possibilidade de cumprir penas
menores. Em acordo com judiciário, as delações permitem que suas empresas
consigam continuar participando de concorrências públicas. Significa ainda uma “saída
honrosa” para os réus, se é que existe honra nisso. Políticos confessam seus
“pecados”, oferecendo as cabeças de seus “colegas”, na busca de terem suas penas
abrandadas, ansiosos por uma absolvição pública, que dificilmente virá.
O
certo é que sem as delações, os processos estariam se arrastando nos tribunais.
Réus contratando os melhores advogados do país, e sendo beneficiados pela
lentidão do judiciário e pela desarticulada e desestruturada polícia
investigativa. A verdade parece ser uma só: meia dúzia de cabeças pensantes, do
judiciário e polícia, “salvou o país” quando montou esta operação, fazendo uso
das “delações premiadas”. Sem elas nunca teríamos chegado onde chegamos. O que
vale mais: conceder o privilégio de cumprir pena reduzida e permitir que suas
empresas continuassem a desempenhar suas funções anteriores, ou correr o risco
de nunca vê-los presos e nem de ver o dinheiro de volta as contas públicas?
Certamente,
no julgamento do Juiz Moro e da equipe da Lava-jato, o que vale mais é o
constrangimento da prisão, que apequena o denunciado. É a sua obrigação de
tornar público seus “esquemas milionários”, causando o estarrecimento, mesmo
que volátil, da população brasileira com a podridão da corrupção. Agora nos
resta acompanhar esse momento de “lavagem” (a jato), esperando que o brasileiro
perceba que valeu a pena se indignar, visto que a corrupção não é prática
tolerável neste país. E finalmente, que as entidades públicas e seus servidores,
apesar da vontade de alguns, funcionam e cumprem o dever de servir, e não de se
servir.
Dimas de Castro e Silva
Neto
Professor Ajunto da
Universidade Federal do Cariri,
Doutorando em Eng.
Civil na Universidade de AveiroArtigo publicado no Jornal do Cariri de 12/07/2016
