segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Olimpíada pra inglês ver


A Rio 2016 acabou e o sonho de sediar os jogos olímpicos tornou-se real. As obras de infraestrutura atrasaram e houve problemas na acomodação das delegações, mas sem atrasos não seria Brasil. A abertura e o encerramento foram lindos. Afinal de contas, de carnaval o carioca entende. A organização durante os jogos cumpriu seu papel e, graças a Deus, os terroristas não pintaram por aqui. Agora é hora de saber se o desempenho dos anfitriões foi o esperado, quanto custou esse sonho e qual legado foi deixado. 

Ganhamos 19 medalhas. Fomos o 13º colocado. Foi o melhor desempenho de todos os tempos. Até então, o 16º lugar em Atenas tinha sido nossa melhor colocação. Considerando o investimento na estrutura dos jogos e a torcida a favor, subir 3 posições e ganhar 2 medalhas a mais do que Londres 2012, foi decepcionante. Os Estados Unidos, campeão desta olimpíada, conquistou sua milésima medalha. O Brasil só tem 128. O segredo deles é a formação nas escolas, com diversidade de esportes e incentivo a prática. As universidades oferecem bolsas para os melhores atletas, boas instalações e treinadores. Há campeonatos, ligas e patrocinadores que vêem no esporte o retorno financeiro pela divulgação de suas marcas.

Em Outubro de 2009, o Brasil foi escolhido para sediar os jogos. Seriam 7 anos para preparar uma geração de atletas capazes de disputar medalhas com os melhores do mundo. Mas não foi bem assim. A Olimpíada custou mais de 38 bilhões de reais. A grosso modo, 2 bilhões por medalha. Meio caro né? A Inglaterra, 2ª colocada, terminou os jogos com 67 medalhas, investindo neste ciclo 1.5 bilhão de reais. Tudo bem que fomos a sede e tivemos que incorrer em todo seu custo, mas deveríamos ou podíamos pagar uma festa destas, “pra inglês ver”?   

Pagamos não só uma, mas duas festas, contabilizando a COPA. Pois é, acabou a festa e agora quem vai pagar a conta somos nós. As parcerias público privadas, firmadas para viabilizar os projetos, tem de ser pagas. Os estádios estão ai subutilizados. Infelizmente, a exceção de alguns poucos esportes, quem decide ser atleta de alta performance no Brasil continua fadado a realidade da falta de estrutura física, treinadores e patrocinadores. Confirmando a citação latina do poeta romano Juvenal “mens sana in corpo sano” , educação e esporte deveriam estar intimamente ligados. Este era o legado que nossos governantes deviam-nos ter deixado.

Dimas de Castro e Silva Neto
Professor adjunto da Universidade Federal do Cariri
Doutorando na Universidade de Aveiro.

Artigo publicado no caderno OPINIÃO do Jornal "O POVO" de 12/09/2016
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2016/09/12/noticiasjornalopiniao,3658161/olimpiada-para-ingles-ver.shtml#.V9ZspNwLes4.facebook