terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eu quero é que...


O dia 03 de outubro se aproxima e lembro que, no já distante setembro de 2008, eu idealista e moderado, sugeria no artigo “Melhores processos, melhores gestores”, que a evolução do atual “sistema” deveria deixar de cobrar de nossos representantes apenas a prestação de contas (Ficha Limpa) do dinheiro público, melhor sendo: apresentar um projeto de governo, apontando metas... e haver uma consulta ao final do mandato, para apontar o grau de satisfação do eleitor ao trabalho prestado pelo empossado, podendo esta inclusive vetar uma investidura deste a um outro cargo público. Hoje, diante de tantos casos de corrupção, em todas as esferas e em todo país, de sua banalização e adoção generalizada, sinto-me um sonhador. Vejo ricos homens, doutores até, gastando milhões de reais em campanhas para deputado estadual, federal, senador e governador. A troco de que?

Vamos fazer uma conta. Um deputado, por exemplo, que recebendo um salário de aproximadamente 12.000,00 reais, por mês, teria em quatro anos, caso não gastasse um tostão, acumulado cerca R$ 600.000,00. Que bem feitor é esse que gasta R$ 1.500.000,00 pra se eleger e tem um prejuízo de quase 1.000.000,00 de reais? Essa conta tá errada! O que faz com que tantos almejem, com tanta vontade, um cargo destes? A certeza de estar protegido pela máquina, de praticar tráfico de influência livremente, de poder negociar ementas para prefeitos e/ou governadores que por sua vez negociam com empresários e empreiteiros seu famoso “percentual”. Tem algum brasileiro na face da terra que não sabe que o “esquema” funciona assim? O pior é que parece que nos adaptamos tudo isso. É fácil escutar numa roda de conversa: Vou votar nesse porque ele rouba, mas faz! Porque pelo menos é meu amigo! Porque pelo menos vai me fazer um favor! Porque, pelo menos, apertou a minha mão! Contentar-se com “pelo menos” é assinar em branco o contrato que diz: você me dá seu voto e eu resolvo o que vou fazer com parte dos teus impostos durante 4 anos.

Assisto a tudo isso descrente neste sistema falido, descrente no homem que vê tudo isso e acredita que está tudo bem, tudo certo, normal! Assisto a iniqüidade política imperando. Hoje fazemos um Brasil sem “eles”, pagando o dobro para que sobre a metade para esta corja! O salto, o Brasil que o Brasil merece, limpo, virá? Quando? Quando formos um povo mais culto, mais inconformado com injustiças, menos irresponsáveis e mais corajosos para dizer não a tudo isso. Você apertaria a mão de alguém que tivesse te roubado algum dinheiro? Enquanto isso, plagiando o personagem de Chico Anísio, Justo Veríssimo, “eles” dizem: “Eu quero é que o povo se exploda!”

Dimas de Castro e Silva Neto
Engenheiro Civil, Mestre em Gerenciamento da Construção
pela University of Birmingham e Professor do Curso de Engenharia Civil da UFC Cariri


Artigo publicado no Jornal do Cariri de 28/09/2010.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Lançado o livro: CARIRICATURAS em Verso e Prosa


Aconteceu no último dia 24 de julho em noite de muita festa, no Crato Tênis Clube, o lançamento do livro CARIRICATURAS em Verso e Prosa.

A publicação é obra de 33 autores, poetas, contistas, ensaístas, cronistas, gravuristas e articulistas, colaboradores do Blog que empresta seu nome a obra.

O livro sintetisa o pensamento de seus escritores, em seus diversos textos, que falam e se inspiram nas coisas desta região tão particular, o Cariri.

Muito me honra a oportunidade de mesmo sem ser filho do Crato ou da região, mas com enorme amor por esse lugar e sua gente, ter sido convidado a contribuir com os textos: Bons Modos! Coisa Rara...; O Preço do Estado e Orfãos de Padre.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Órfãos de Padre


Nos dias de hoje, a Igreja Católica atravessa uma “entressafra” de bons Padres. A percepção é mais latente no momento da missa onde a celebração sai de sua “rotina”, o sermão. Nesta hora é que se percebe a qualidade do celebrante. No caso do Crato, e por que não do Cariri, desde a transferência de Padre Raimundo Elias para Europa, milhares de fieis ficaram órfãos de Padre.

Particularmente, como freqüentador assíduo de suas missas, achei na época do anúncio de sua ida para o Doutorado na Espanha, muito difícil encontrar um Padre que o substituísse a altura, mas guardava dentro de mim a esperança de encontrar alguém que passasse o “básico”. Básico significa para mim: alguém com formação e estudo suficientes para ter o compromisso de previamente organizar um sermão, baseado nas leituras da missa e que através destas deixasse aos presentes, dentro de um limite de tolerável de tempo, uma palavra de reflexão de uso prático. Resumindo: deixasse mensagens que eficientemente acrescentassem algo de motivante e real na vida de cada um.

Este desabafo é de alguém que buscou insistentemente um pastor. Fui a muitas paróquias, às vezes, em horários diferentes só pra saber se havia outro celebrante. Nada! Encontrei discursos vazios, mal organizados ou desorganizados mesmo! Frases superficiais e pouco, ou pouquíssimo, acrescentadoras. Faltava até credibilidade no que era dito pelo tom de descompromisso com o qual por algumas vezes se “jogavam” os trechos bíblicos. Comecei a achar que o problema era comigo! Não estava sendo tolerante o suficiente ou estava buscando uma cópia que simplesmente não iria aparecer do dito Padre. Comecei então a perguntar aos amigos e conhecidos onde eles assistiam a missas e se haviam encontrado um bom Padre. A resposta era sempre: “estamos indo a missa, mas os Padres...”

Neste mundo contemporâneo de tantas necessidades a maior delas deve ser a do alimento da alma. Principalmente num país em desenvolvimento como o nosso, a missa ou a celebração religiosa que seja, acaba por ser a única oportunidade de reflexão orientada de grande parte da população. Sem dúvida, a responsabilidade é enorme e os prejuízos podem ser igualmente profundos. Espero que com esse depoimento, alguns Padres procurem buscar o desenvolvimento de suas habilidades de oratória e renovar seus estudos bíblicos, filosóficos e psicológicos tão importantes na orientação de seu rebanho. Espero ainda que jovens vocacionados ao sacerdócio compreendam que seu público está mais atento ao que é oferecido, e que é preciso muito mais preparo e conhecimentos para alcançar os corações do povo de Deus.

Dimas de Castro e Silva Neto
Engenheiro Civil, Mestre em Gerenciamento da Construção
pela University of Birmingham e Professor do Curso de Engenharia Civil da UFC Cariri